Cava

A cava, suas borbulhas
Sorvidas com gosto
Como magia
Esfumam anos mil de repressão
Da religião, moral e do escambau
Some a amargura da alma
O medo do coração
Libera-se a fera sensual
A sedução, a entrega, a conquista
Aí nossa! Não há inferno, culpa ou troça
Mas um corpo ardente
Na mente borbulhante
Com a explosão …o gozo
Do amor, do sexo, do desejo
Do ser amante livre e delirante…

 

Passaro

Foi-se dois mil e doze
Ano muito ruim para mim
No transcorrer dos dias
Ele abusou da rima amor e dor
Vou aproveitar a passagem simbólica temporal
Para dar um ponto final.
No sentimento que tanto quis
Qual pássaro ferido
Lentamente as asas agito
Revoo ao céu infinito
Sem qualquer condoimento
Atiro-me ao vento
Sem jamais olhar para atrás
Pois agora me satisfaz
Novas emoções
Cujo ponto final
Permitiu ao meu coração…

Pensa-se, habitualmente, que o ladrão, o assassino, o espião, a prostituta, uma vez que admitam ser a sua profissão um mal, devem envergonhar-se dela. Mas acontece exatamente o contrário. As pessoas a quem o destino ou os próprios pecados e erros colocaram numa determinada situação, por mais irregular que ela seja, criam uma visão geral da vida em que a sua situação lhes parece boa e respeitável. Para a manutenção de tal visão, conservam-se instintivamente num círculo de pessoas onde se adota a mesma noção que elas criaram a respeito da vida e do seu lugar nela. Isso nos espanta quando se trata de ladrões, que se gabam de sua habilidade, de prostitutas, que se gabam de sua devassidão, de assassinos, que se gabam de sua crueldade. Mas isso nos espanta apenas porque o círculo-ambiente dessas pessoas é restrito e, sobretudo, porque nos achamos fora dele. Porém não ocorre o mesmo fenômeno com os ricos, que se orgulham da sua riqueza, ou seja, da espoliação, ou com os chefes militares, que se orgulham do seu poderio, ou seja, a violência? Não enxergamos em tais pessoas uma noção da vida, do bem e do mal deturpada, com o propósito de justificar a sua condição, apenas porque o círculo de pessoas que adotam essas noções deturpadas é maior e nós mesmos pertencemos a ele.

Liev Tolstói – Ressureição