
Gota solitária de lágrima desce à face
O motivo é desconhecido
As circunstâncias não justificam
Mas a gota é cachoeira condensada
De uma vida amargurada
Repleta de posses
Esbanjamento material e imaterial
Tênue fausto de cotidiano anódino
Gota de denúncia, traidora das classes e das crenças
Dos ricos pobres de espírito
Dos pobres ricos de ganância…

Quisera eu, como escritor, só falar de amor
Coisas alegres, felicidade, amabilidades
Esquecer o mundo real e transitar pelo ideal
Pelas fantasias infantis, criar um orbe pueril
Quisera eu, como homem, só amar
Não ter raiva, cobiça, vaidades…
Detestar o poder, apenas querer viver
Como um guri alegre, repleto de bobices
Quisera eu apenas sorrir com simplicidade
Chorar só lágrimas de felicidade
Acariciar as pessoas queridas
Beijar a mulher amada
Quisera eu ser um mágico
Para tirar as dores da humanidade
Um deus ateu nada onipotente
Para permitir às gentes
Viver os amores ardentes, meramente isso quisera eu…

Felicidade! Felicidade sublime, frágil e furtivo instante
O mais raro e caro sentimento
Senti-o em um raio de vida
Seu nome foi amor
Que passou, passou como chispa existencial
E agora no cotidiano real
Busco qualquer outro ideal
Para afastar o sofrimento
Seguir o possível da vida normal…
Não possuem volta, as palavras escritas
Os escritos soem ofender gentes
Isso é um autor: escreve sem volta e ofende
Mas também alegra, agrada, surpreende e muda
O leitor decide entre a ofensa e/ou a mudança
Essa é a magia de escrever
Se meter na vida dos outros…
Correntes são só metais
Aprisionam os corpos
Ferem, sangram, causam dor
Mas não atuam sobre as mentes
O corpo preso e dolorido sofre
A mente livre flutua
Faz seu mundo
Cria sua felicidade
As correntes da mente são sutis
Convencem ao aprisionamento
Aniquilam o cérebro
São mais fortes, ultrapassam os metais
Abandonemos as TVs, fujamos dos templos
Dos mecanismos de adestramento
Busquemos refúgios nas bibliotecas, nos museus, na arte
Arrebentemos as correntes de metais, mentais e cerebrais…
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