Aniversário

Tenho poucos segundos, minutos, horas

Cai no mundo, de um submundo

Escorri da fenda, quase sem vida, subvida

Sem saber o que era, ainda em formação, só tive decepção

Minha hospedeira era maltratada, passou fome e foi violada

Coisa estranha a sensação

O nascer e o se apartar

Proteção não tive, não

Lá dentro ou aqui fora

Só vivi más horas

Tenho alguns dias, só não morri

Coração que ainda bate, estou aqui a resistir

Mas quem me fez e me pariu não resistiu

O outro, também responsável, me suportou

Mas não parou e eu estou em mãos alheias

A fraqueza me acompanhou

Vem comigo a toda parte

Levou-me à subnutrição

Pois tive fome e não acesso à alimentação

E acabei tendo diarréia, anemia, raquitismo e bócio e não foi por ócio

Tenho cinco anos e meu pulmão se destacou

Chorou chorou sem mamadeira e nem sequer dedeira

Cedo conheci dor estranha em minhas entranhas

Faltava algo, um alimento ou um alento

Sem paciência quem me cuidava esbravejava

Foi então, sem opção, que decide algo fazer para viver

Fui para a rua, sob a lua, tentar sobreviver

Foi então que aprendi a pedi

Fui tomado de desespero ao ver meu chapéu vazio

Foi então que descobri o subtrair para nutrir

Tenho dez anos e há muito cuido de mim

Após andar e já pensar fui me sustentar, para não chorar

Sou pequeno, subnutrido, mas esperto, ligeiro e aguerrido

Sem cobertor, quase indolor, não paro diante da dor

Sempre dou um jeito, me adaptei e me aperfeiçoei

Certo dia, meio cansado, já fatigado, fui segurado

Homem fardado, pouco asseado, disse não estar pra brincadeira

E logo foi me aplicando uma medida corretiva

Sua grande mão me acertou com precisão e maestria

Muito tonto, abobalhado, fui levado a um juizado.

Duas moças me atenderem e me chamaram de querido

Não sabia o que se passava, mas comi e agradeci

Logo em seguida me levaram a um tal de magistrado

Então um doutor disse que iria me ajudar

Para isto me aplicou o que chamou de medida sócio-educativa

Como não tinha para onde ir, era um desgarrado, acabei internado

A lei chama de abrigo, uma forma de esperar um outro lar

Mas neste lugar tinha muita gente, grades e até correntes

A princípio me assustei e em princípio relutei

Mas logo me acalmei, pois pensei que iriam me amparar

Não conhecia o porvir e nova dor já por vir

Acostumado, pensava tudo ter experimentado

Dor de fome, dor de surra, de moléstia, medo e solidão

Mas desta vez foi diferente, foi por trás não pela frente

Foi alguém da instituição e o fez em nome da salvação

Machucado, assustado, revoltado, resolvi dali sair

Afinal a minha honra, tinha honra, foi aviltada

Para fugir não foi difícil, era destro, corajoso, esperto e habilidoso

Voltei para minha casa, grande casa, sem porta e sem janela, era toda a favela

Acolhido por ali, solidariedade sempre há, quinze anos fui festejar

Mas a vida continua, nua crua, e sempre a cobrar

Uma hora o que comer, outra o que vestir, tenho sempre que comprar

Mas emprego é ficção, a lei não se concretiza por aqui não

Sem opção, com apetite acelerado, celerado continuei

E assim era meu dia-a-dia, ganhava o pão e enfrentava o camburão

Não me lembro quantas vezes tentaram me reeducar

A cada internação, era a mesma sofridão

Violência institucional e maior que a marginal

Aprendi ali a responder no mesmo diapasão

Foi quando me tacharam de bandido perigoso

Então me avisaram que a hora estava chegando

Criança, adolescente, quase não era mais

Por dezoito anos comi eca, vive eca e na eca

E agora o ECA não mais me protegeria

Seria responsável criminal e a lei, que nunca veio como direito, agora me faria um homem direito

Outro descuido e outro doutor, em um juízo condenatório

Disse que me conhecia, leu minha vida pregressa, sem pressa

Não falou da fome, da miséria, do sofrimento e da dor que sempre me assolou

Apenas relatou os furtos realizados e o patrimônio alheio lesado

E com um sorriso interno me olhou e logo me condenou

Que saudade me deu do centro de internação

E isto já aconteceu no primeiro dia de prisão

Toda fama de bandido se tornou desilusão, virei carne fresca, um tesão

Eu era um nada no furacão que girava em torno da corrupção

Foi quando percebi que minha vida passara em vão

Pensei em aceitar a tal reeducação

Não quis acordo com os guardas, muito menos com o chefão

Queria cumprir a pena

Aprender uma profissão e sair da solidão

Este foi o maior erro e não me apercebi

O crime organizado controla os dois lados

Ficar vivo depende de muita proteção

E sem ela não há qualquer reeducação

Não seguir as regras postas sequer é uma aposta

Busquei sobreviver, me cuidando a cada passo

Mas em uma instituição total, ninguém é o tal

Reclamei, alertei, chamei o Diretor Geral

Ia se passar algo muito brutal

Minha vida não valia mais nem um real

Ninguém me ouviu e tudo acabou em uma noite sepulcral

Esta é a estória de um menino, mil, milhões deste Brasil

Sonegados de direitos, são pegos pelo direito

Contra a violência social se assaca a institucional

Somos todos responsáveis, na omissão, na inação

E assim será enquanto não estivermos dispostos a mudar

Minha estória, nossa história

2 comments

  • susie

    susie

    Reply

    Maravilhoso! Me fez chorar.

    • ledio

      ledio

      Reply

      Susi teu choro me fez feliz, ver teu sentimento me alegrou querida amiga.

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